DEPOIMENTO

José Carlos de Moura

“Primeiro Colaborador” do CDT

O Centro de Difusão de Tecnologia da Fealq – Origem e Desenvolvimento

Convocado para relatar, de maneira sucinta, alguns aspectos de minha colaboração no desenvolvimento do setor de difusão de tecnologia da Fealq, faço-o em reconhecimento à oportunidade de trabalho que me foi proporcionada pela direção desta Instituição, inicialmente de forma esporádica e, na maior parte do tempo, de forma permanente.

Ao fazê-lo, cumpre-me recuar no tempo, a um período anterior e precursor da instituição da Fealq, desde logo sabiamente intitulada de Estudos Agrários Luiz de Queirozassim abrangendo todas as áreas de ensino, pesquisa e extensão do Campus da USP em Piracicaba.

Concluído o curso de agronomia na Esalq, em 1967, meu primeiro emprego, durante quatro anos, no Ministério da Agricultura – escritório de São José dos Campos – compreendia trabalhos de extensão que demandavam conhecimentos na área de produção bovinos leiteiros. Alguns anos depois, a partir de 1971, já na Secretaria da Agricultura de São Paulo, ainda como agente de extensão (o que sempre fui em toda minha vida profissional), então vinculado à Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), minha área de atuação abrangia todo o estado. Continuava na mesma área técnica, colaborando com as Casas da Agricultura nos projetos de bovinocultura.

Nessa época alcançou grande repercussão o Método CATI de formação de pastagens, baseado na recuperação da fertilidade do solo, no uso de sementes de capim colonião de valor cultural conhecido e no plantio mecanizado. Com grande aceitação, este método carecia, no entanto, de informações técnicas, cientificamente fundamentadas, na etapa seguinte, de manejo das áreas formadas.

Na mesma época, difundia-se um método de manejo de pastagens com apresentação de resultados espetaculares, garantindo a redenção da pecuária. A CATI não dispunha de algo concreto, com embasamento técnico, em que se apoiar para fazer frente a essa situação.

Precisando urgentemente de auxílio científico, a CATI promoveu, por iniciativa de Adibe Jorge Roston, coordenador do Programa de Produção de Carne Bovina do Estado de São Paulo, o Encontro sobre Manejo de Pastagens, em 09 de Novembro de 1972, em Campinas, com a participação de 34 expositores das instituições de ensino, pesquisa e extensão deste estado. Primeiro a discorrer sobre o tema, o professor Moacyr Corsi, da Esalq, apresentou conceitos essenciais para manejo de pastagens, abrindo a perspectiva de se utilizarem dados, informações e recomendações disponíveis em publicações e instituições de ensino e pesquisa e ainda não adotadas pelos pecuaristas. Estava lançada a semente da necessidade de se coligirem e se sistematizarem essas informações e recomendações.

Concluídas as apresentações, por deliberação consensual dos participantes do Encontro, solicitou-se a cada instituição, por seus representantes, o encaminhamento de trabalho, mesmo que em esboço, a uma comissão de redação, até 09 de dezembro de 1972. Este não foi procedimento adequado para obtenção, a curto prazo, de informações seguras, atualizadas e embasadas cientificamente, uma vez que nenhuma instituição apresentou sua contribuição na data estabelecida. A busca por informações técnicas sistematizadas continuava como imperiosa necessidade.

Em decorrência, duas outras recomendações do Encontro passaram a ser implementadas:

  1. A redação das Normas para Manejo de Pastagens, a cargo de comissão de pesquisadores e extensionistas da Secretaria da Agricultura, com resultados positivos, suprindo a necessidade do momento e indicando a necessidade de trabalho mais amplo e mais aprofundado.
  2. A realização do Simpósio sobre Manejo da Pastagem,em Piracicaba, sob coordenação do professor Vidal Pedroso de Faria, cabendo-me a organização da secretaria na primeira edição do evento, colaboração esta que conservei em todas as seguintes 27 edições, até o ano de 2019.

Planejado segundo estratégia que se revelou adequada, o evento, reconhecido nacionalmente, alcançou os objetivos tão ansiosamente perseguidos e representou um marco na programação e realização de certames técnico-científicos. Primeiramente se escolhiam os temas, ordenados em sequência lógica, como capítulos de um livro (os anais), para depois se identificarem e se convidarem os especialistas encarregados de desenvolvê-los, sem preocupação com sua procedência geográfica ou institucional.

A rigor, era um evento na Esalq, antes que da Esalq. Propiciava-se a confluência de conferencistas, convidados com muitos meses de antecedência, para a realização de certames que primavam pela utilização parcimoniosa de recursos financeiros e pelo compromisso de entrega, a cada participante, durante sua realização, dos anais compreensivos de todas as contribuições apresentadas. Também às bibliotecas e instituições de ensino, pesquisa e extensão de todo o país se encaminhavam os anais, à medida que os solicitavam.

A tiragem dos anais sempre excedeu em duas ou três vezes o número de participantes, ensejando a venda a outros interessados. Este procedimento, aliado à cobrança de inscrições, tornava o evento autofinanciável. A edição dos anais correspondia, portanto, a um projeto editorial alimentado pelos certames.

Rígida disciplina orientou a metodologia do Simpósio em 27 edições, a partir de 1973, para as quais nunca faltaram público ou recursos financeiros. Também nunca faltou o empenho do Departamento de Zootecnia, com a participação dos professores Aristeu Mendes Peixoto e Rubens da Silva Furlan, a partir das primeiras comissões organizadoras, a que se seguiu a colaboração de outros docentes, com o passar dos anos. Acrescente-se, por fundamental, o apoio entusiástico do engenheiro-agrônomo Adibe Jorge Roston que, primeiramente, vislumbrou a possibilidade de se reunirem especialistas para produção de conteúdos técnicos para atendimento de finalidade específica.

A continuidade dos Simpósios, no entanto, precisava de apoio institucional, notadamente no gerenciamento de recursos financeiros. A instituição da Fealq, no final de 1976, assegurou esse apoio. Acolheu-nos solicitamente, nesse sentido, o professor Joaquim José de Camargo Engler, então dirigente da Fealq.

Dessa maneira, o Departamento de Zootecnia e a Comissão Organizadora do Simpósio sobre Manejo da Pastagem tiveram a exata compreensão do papel que representaria a promissora instituição.

Uma nova fase, então, se iniciou e novos eventos, com a mesma metodologia e disciplina, foram programados. Simpósios e congressos passaram a abranger as principais explorações zootécnicas: Bovinocultura de Corte, Bovinocultura Leiteira, Nutrição de Bovinos, Equideocultura, Suinocultura, a que corresponderam outras edições exitosas, o que se tornou possível pela participação maciça de novos colaboradores: Abel Lavorenti, Alexandre Vaz Pires, Carla Maris Machado Bittar, Carlos Guilherme Silveira Pedreira, Claudio Maluf Haddad, Dante Pazzanese Duarte Lanna, Flavio Augusto Portela Santos, Ivanete Susin, Luiz Gustavo Nussio, Max Lázaro Vieira Bose, Roberto Thomaz Losito de Carvalho, Sila Carneiro da Silva, Valdomiro Shiguero Miyada, Wilson Roberto Soares Mattos.

Consolidaram-se, assim, duas vertentes (certames e edições), bases de estruturação do Centro de Difusão de Tecnologia da Fealq, para atendimento de todas as unidades do Campus, com interesse crescente dos professores e a promoção de inúmeros eventos de longa e curta duração, demandados por público de variadas profissões e de todo país, desta vez com a colaboração de todos os setores do Campus da USP em Piracicaba.

As Edições Fealq, que contaram com a colaboração do editor Arnaldo Machado Camargo Filho por mais de 40 anos, devem a este profissional dedicado, e ao Conselho Editorial, que as autorizava, muito do prestígio que desfrutam. Até 2019 foram editadas 289 publicações, cujas tiragens somaram, seguramente, mais de 300.000 exemplares, que foram vendidos sem que um único pagamento deixasse de ser efetivado. Houve, como não poderia deixar de ser, muitas doações. Digna de menção, como publicação mais vendida, destaque-se o Manual de Entomologia Agrícola, obra coletiva dos professores do Departamento de Entomologia.

Ao longo de pouco mais de quatro décadas foi-me concedida a oportunidade de colaborar com atividades de difusão de tecnologia em apoio à coordenação dos eventos e à edição de livros. A pequena equipe que se dedicou a essas atividades, muitas vezes com sobrecarga de trabalho, sempre deu “conta do recado”.

A partir de 2020, com nova direção, o Centro de Difusão de Tecnologia, acrescido de novos colaboradores, certamente aperfeiçoará e ampliará seus procedimentos, a que não faltará o incentivo dos novos dirigentes da Fundação que, dessa maneira, darão sequência à disposição, sempre referendada, de todas as diretorias anteriores.

 

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